segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sinestesia

                imagem do google


A porta se fecha e atrás dela
quase uma vida se foi
aqui entre essas paredes
restaram cinzas e vida escassa
os cheiros azuis e lilases do nosso amor
que encharcavam nosso santuário de gozo
são agora vermelhos com gosto de mofo e breu
partes inteiras de carnes, afetos e sonhos
partiram para outra herança
restou um gemido fraco esboçado com as mãos
meu corpo vaga perdido nessa imensidão espremida 
de alma e espaço
não durmo 
tudo é complexo e confuso
minha parte abstrata e poeta acenam, despedem-se de mim
e eu permaneço entre essas paredes amargas
que me oprimem e entorpecem sinestesicamente
entre ilusões e bagaços.

Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Trinados

                                                                           imagem Google


se afagas com carinho a minha face
seguro tuas mãos na intenção de eternizar
este momento
enquanto os olhos dizem todas
as palavras que nos faz
transbordar o peito em regozijo
e o desejo que paira neste instante
é que o tempo se torne estagnado
pois teus trinados enfeitiçam meus ouvidos
porque teus trinados alcançam tudo
que há dentro e fora de mim
e captura toda a minha essência
um gorjeio místico de pássaro
é a tua voz penetrando em meus poros
feito ouvidos encantados retinindo cantos


Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Faz sentido

                                          Ensaio e poema - Marisete Zanon

preciso urgentemente me apaixonar de novo

sentir palpitações dentro do peito

escancarar  verbos, substantivos, adjetivos

e compor  voos de rimas

a poesia fugiu de repente


mas acho mesmo que fugi de mim

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Realize

                        Fotografia - Jeane Hanauer

Há tantas coisas que gostaríamos de ter feito enquanto jovens, mas vamos deixando de lado, ou empurrando para frente, imaginando que temos todo o tempo do mundo para aproveitar as oportunidades. Quando chegamos a certa idade gostaríamos de ter a experiência desse momento, exatamente quando éramos jovens para aproveitar essa sabedoria e poder usufruir dela com mais prazer. A vida é assim mesmo, não podemos inverter a ordem dos fatores. Não porque a vida é curta (ela é da medida certa que precisa ser), mas porque é melhor viver os sonhos, sentir o prazer de poder realizar os anseios que nos agitam e impulsiona o levantar pela manhã. Por isso eu preciso dizer, e principalmente aos mais jovens que aproveitem com sabedoria as chances que a vida proporciona. Estude (isso é o que te leva a construir o futuro). Aproveite a vida com quem ama. Case com quem ama. Sonhe e realize. Transforme ideias em soluções concretas. Monte sua banda. Vá para outro país, para outro lugar muito diferente de onde vive.  Dance. Vá aos shows dos seus cantores preferidos. Compre sua casa. Plante aquela árvore frutífera que você tanto gosta. Plante flores. Se tudo não der certo e a idade já estiver chegando e você continua sonhando, não desista. Sempre tem um cantinho em que se pode enfeitar com carinho para estar no final de um dia de trabalho e poder sentar com a consciência tranquila e dizer: eu tentei.

Marisete Zanon  


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Percepções repentinas

Fotografia - Marisete Zanon


...e foi quando ela percebeu que as janelas já não floriam como antigamente.
Suas pestanas pesavam murchas como guarda-sol molhado em dia de chuva
e do lado de dentro só se sentia a aridez e o tempo voando...

Marisete Zanon

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

No varal


Cheguei deixando todo o peso

toda a bagagem de anos

todo o cansaço 

diluindo-se

esvaziando-se

do meu corpo

tirei os sapatos

que martirizavam meus pés

lavei meu corpo

com sais, sálvia e camomilas

as crostas do tempo

foram se soltando

e eu ficando cada vez mais leve

não haveria mais de voltar

por esse caminho

outros ventos sopravam

recolhi meu corpo

e pendurei delicadamente

no varal para descansar


Marisete Zanon  

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Primavera

                                     Fotografia - Marisete Zanon


rebento da terra

ergue aos céus

louva ao azul

cresce em verde

escurece caule-tronco

esgalha-se

brota e floresce...



Marisete Zanon - Todos os direitos reservados

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Do amor e seus vazios...




Obra do artista plástico Ricardo Passos - Lisboa - Portugal


Descrevi o amor em vários aspectos,
vivi o amor de várias maneiras,
experimentei o amor de muitas formas,
mas a vida, essa minha vida de hoje 
não me mostra nada diferente.
Vejo o amor como uma luz através
da neblina.
 Cansei de amar sozinha.
de servir a taça, dividir a cama,
de encher o outro e ficar vazia.
De aquecer e ficar fria.
Estou esquecendo o verbo amor,
o ato amar. 
Se faz presente
outras necessidades mais prementes.
Esse amor egoísta que é Eros, 
que serve para amar apenas um,
não está mais cabendo em mim.
Essa busca de amar e ser amado
é como um bote sem remos contra a maré,
em mim naufraga essa possibilidade
e nem adianta as lágrimas tentarem me afogar
não vou morrer por essa necessidade.
Coube ao destino que eu amasse sozinha,
mas tudo na vida tem um fim. A tristeza,
a alegria, a paixão, a dor, a luz, a escuridão,
a raiva, a noite e o dia...
O que é o amor mesmo?


Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Pensamento

Fotografia - Marisete Zanon


é quando a madrugada vem

que tu chegas colhendo perfumes

de outras brisas em outras paragens

lembranças sutis encantando

com laços o meu presente.

Sem ti não renasço,

não atuam as cenas que vivem

guardadas na memória quase dispersa.

É como o mar que joga suas reminiscências

de volta a areia da praia

envolvendo os finos grãos de absoluta certeza

que o pensar me faz existir a cada segundo

dessa vida de quem acumula lembrança.


Marisete Zanon - In Confissionarium Book - Todos os direitos reservados a autora


sábado, 15 de outubro de 2016

meu mundo quântico



me lanço na oportunidade que o tempo

me empresta

atiro no vácuo da imaginação

uma folha de papel escrito

poderia ser um teclado,

mas escolho ser (arcaica?)

por enquanto nada ultrapassaria a velocidade da luz

assim o tempo não faria uma dobra

e as horas continuariam seu curso em linha reta

absolutamente normal, abstrata e bela

esse universo quase malha que me inspira

sentir como poeta

e perceber que meu corpo tem infinitos átomos

como estrelas no céu

me seduz  com seus vastos mistérios

sem saber se um dia saberei decifrá-lo


Marisete Zanon – In Confissionarium Book